Expedição de radioamadores aos Rochedos de São Pedro e Sao Paulo

Montar uma estação de rádio nos penedos de São Pedro e São Paulo, e de lá
falar com o resto do mundo, era um velho sonho de quase todo radioamador
brasileiro. Um parentese: para você, que anda meio esquecido de coisas da Geografia,
os Penedos de São Pedro e São Paulo são aquele pontinho perdido no Atlântico, um
pouco acima da linha do equador e bem acima de Fernando de Noronha. Para
localizar melhor no mapa do Brasil, corra a vista do Rio Grande do Norte para
cima, um pouco a direita. Pois bem. Há cerca de cinco anos, um grupo de radioamadores de Recife
vinha tentando organizar uma expedição ao local. Agora eles conseguiram. Com a
ajuda da Marinha, que pôs a disposição a corveta "Ipiranga", e a colaboração da
FAB. A expedição, que levou também 3 pesquisadores da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte, interessados em assuntos da biologia marinha brasileira,
teve, assim, um cunho científico ao lado do sabor de aventura. Uma aventura de
que o Cruzeiro participou, documentando-a em todos os lances. Com exclusividade. Por que essa espécie de idéia fixa de ir aos Penedos de São Pedro e São
Paulo - é uma coisa que poucos entendem. Acontece que, no radioamadorismo existe
uma competição de âmbito mundial, que consiste em os participantes trabalharem o
maior número possível de países, entendendo-se como país não só aquele que tem
organização política própria, independente ou não, como também certas ilhas
oceânicas que distam mais de 150 milhas dos países as quais estão políticamente
ligadas. Para melhor entendimento, em termos de radioamadorismo, aqui no Brasil
somos 04 países: a parte continental brasileira, o arquipélago de Fernando de
Noronha, as ilhas Trindade e Martin Vaz e os longínquos Penedos de São Pedro e
São Paulo, este último considerado "país virgem" naquele tipo de competição. Era, pois, necessário que se desbravasse de uma vez por todas a região. E
era importante que issso fosse por brasileiros. Mais de vinte e cinco mil
radioamadores do mundo inteiro estavam interessados no empreendimento. PERSONAGENS: Da viagem aos Penedos pela Corveta Ipiranga, tomaram parte os radiomadores
PY7AOA - Gastão Carlos de Almeida, PY7ACQ - Plínio Bezerra dos Santos; PY7AKW -
Dausiley Caminha; PY7ABU - Jaime Afonso Melo e PY7ACJ - Salvador Rhemydes, além
de pesquisadores, repórteres de O Cruzeiro e tripulação da corveta Ipiranga
comandada pelo Capitão-de-corveta Heitor Alves Barreira Júnior. Exatamente às 18:35hs do dia 15 de dezembro, a corveta deixou o porto do
Recife, para uma jornada que ia durar quase oito dias e que, passadas as
primeiras horas e os primeiros enjôos, correu na mais perfeita camaradagem e
cordialidade. PEQUENA AULA DE GEOGRAFIA: Os penedos de São Pedro & São Paulo se localizam a pouco menos de 1 minuto
de latitude norte, isto é, acima da linha do equador. Mais exatamente: latitude
00º 55' Norte e longitude 29º 21' Oeste. Constituem um agrupamento de rochas de
origem vulcânica, com cerca de 350m na sua maior dimensão que é na direção
Norte-Nordeste, Sul-sudoeste. O grupo principal é formado de quatro rochedos
maiores em forma de "U", formando uma barreta voltada para Nordeste. Ao deste
Grupo principal, existe um grupo menor com 3 rochedos, sempre descobertos. A
pequena distância, ao Norte e a Este do grupo principal, alguns penedos menores.
Um pouco mais afastado, a Nordeste, o rochedo mais isolado do grupo. A rocha
mais elevada tem 20m de altitude, sendo visível a uma distância de 8 a 9 milhas.
A parte mais elevada da maior rocha que fica ao sul do grupo é quase totalmente
coberta de guano (excremento de aves), o que lhe dá uma cor esbranquiçada. Nesta elevação ainda existe a armação de ferro, com cerca de 6 metros, do
antigo farol, que consiste em uma casa totalmente construída em ferro e bronze,
montada sobre uma sapata de alvenaria. Todo carcomido e oxidado. A casinha do
farol ainda continua em pé e atualmente serve de abrigo para as gaivotas. Foi
construída em 1930. Dentro da casa, outra sapata de alvenaria serve de base para
o farol que ainda lá se encontra. Nas rochas e no farol, várias inscrições. As rochas tem uma beleza selvagem e solitária. Seus únicos habitantes são
as gaivotas (de dois tipos), os caranguejos, também de duas espécies e os
pequenos piolhos de aves. Não existe água doce nem vegetação, a não ser uma
espécie de lôdo nas pedras que são às vezes encobertas pelas águas. TERRA À PROA! Eram 4h da manhã do dia 18, quando, depois de aproximadamente 60 hs de
viagem, um marinheiro de serviço gritou: "terra à proa". Era o que todos
esperavamos ansiosos. Às 06:30h estavamos frente a frente com os Penedos de São Pedro e São
Paulo, a uma distância aproximada de 100m. Aí permanecemos cerca de 2 horas, num
estudo de como desembarcar e escalar aquelas encostas escarpadas. Cardumes de
tubarão rondavam a corveta. O Cmt Barreira, temendo perder sua lancha de desembarque, ordenou que
seguisse para os rochedos uma jangada, levando um cabo de 400m de comprimento e
2 tambores vazios. A jangada esteve quase 2 horas ao sabor das ondas tentando
desembarcar. Seus tripulantes, os marinheiros MNEL Jaime. MNSGC Figueiredo,
MNSGC Miranda e o patrão de pesca Raimundo Nonato Pinto conseguiram afinal
desembarcar,amarrando o cabo em volta do farol e fazendo-o descer rocha abaixo
até a água, onde prendeu os 2 tambores para servir de ancoradouro. Em seguida o Cmt Barreira ordenou que se arriasse a lancha que, tripulada
pelo marinheiro CBMO Gomes e MNSGM Pacheco, conduziu nesta primeira viagem os
radioamadores Plínio, Jaime e grande quantidade de material, inclusive um
gerador com mais de 40 kg, fios, antenas e um transmissor de rádio. O mar batia
muito, e somente Plinio conseguiu pular para a jangada e desta para o rochedo. A operação de desembarque do pessoal e material dos radioamadores pareceu
a princípio impossível. As ondas davam saltos de 3m de altura. E - o que tornou
tudo mais difícil - a corveta não pode fundear, pois o fundo encontrado a 40m do
rochedo ia a mais de 140m de profundidade. Assim todo o desembarque foi uma verdadeira operação de acrobacia, com os
marinheiros pendurados por cordas nas rochas esperando os rápidos momentos em
que a onda subia. Os oficiais da corveta tomaram parte no desembarque e todos
estiveram em terra. Desembarcou também outro personagem não mencionado antes, Mr. Paul-Antoine
Evin, oficial da reserva da marinha francesa, que nos acompanhou nesta aventura,
como convidado especial e observador do Yacht Club da França. FALANDO COM O MUNDO: Há vários meses o grande assunto na faixa de radioamadores de todo o mundo
era a "expedição" brasileira aos Penedos de São Pedro & S. Paulo. Radioamadores
dos mais distantes pontos da Terra escreveram para Recife pedindo detalhes e
informações sobre a operação que agora chegava ao seu ponto culminante. A primeira estação a entrar no ar foi PY0DX, em telegrafia. Outra estação
foi também montada para tentar operar em fonia, simultâneamente com o prefixo
PY0SP. Pequenos defeitos técnicos impediram, entretanto, a sua concretização.
Fez-se então a transmissão por revezamento de estações de hora em hora. Mais
tarde, conseguiu-se a operação simultânea, logo posta de lado devido a mútua
interferência. Cerca de 25.000 estações de radioamadores tentavam comunicar-se com os
brasileiros. Plínio, Gastão, Dausley, Salvador e Jaime, se revezavam no
manipulador Morse e no microfone, de modo a manter sempre uma estação em
atividade. Durante às 21:00hs que durou a operação propriamente dita, Estados
Unidos, México, Venezuela, Portugal, Argentina, Inglaterra, País de Gales,
Luxemburgo, Áustria, Alemanha, Rússia, Irã, África do Sul, Argélia, Japão,
Coréia, Angola e muitos outros países conseguiram falar com os Penedos. Mais de 15.000, entretanto, ficaram de lado, dado a exiguidade de tempo.
Tinha-se a impressão de que os radiomadores do mundo inteiro tinham parado suas
atividades normais com a finalidade de escutar os brasileiros. Mesmo assim
efetuaram-se mais de 2.000 comunicações. E mais não foi possível fazer. O boletim metereológico recebido pela
estação de rádio da corveta era ameaçador. Assim, o Cmt. Barreira resolveu
ordenar o término da operação e o imediato reembarque do pessoal, que retornou
ao Recife, depois de efetuar uma das maiores promoções que o nome do Brasil já
teve no exterior.
Aproximação... Reportagem publicada na revista O Cruzeiro, em 10.12.1968
Transportando o pessoal.
Desembarcando na ilha.
Operação no antigo farol.