Em pleno janeiro, mês de férias, sol a pino, fugindo dos congestionamentos e
filas de São Paulo, deparo-me com o mesmo cotidiano na cidade de Ubatuba,
litoral norte de São Paulo. Era o vigésimo de uma fila do caixa eletrônico,
onde pretendia sacar algum dinheiro.
Olhando ao redor, verifiquei um casal fazendo uma determinada pesquisa. Pensei
em sair da fila, pois além de tudo teria de responder a estas pesquisas chatas,
que só nos agradam quando experimentamos qual o melhor sabor de um tipo de
sorvete, em hora de muito calor.
Mal sabia eu, que o acaso começava a delinear ali, o que, para nós da AREP,
seria um excelente aprendizado: início de grandes amizades e um "número" que
representaria muito, tanto para o DIB como para o IOTA.
Voltando à fila, percebi que todos os que respondiam à pesquisa sorriam, como
se tivessem acabado de ganhar um passeio de escuna...e foi justamente o que
aconteceu ! Acabava de ganhar, por um punhado de perguntas respondidas, um
passeio de escuna até a nossa "Anchieta Island".
Como o destino traça tudo muito bem, dois dias depois encontro, ainda em
Ubatuba, um grande amigo, o Peter, PY2FAR. Em conversa sobre a ilha começou a
nascer a intenção de promovermos uma dxpedição.
Voltei para lá acompanhado do Peter e começamos a pesquisar um local para
ficar. Fomos a um ponto relativamente alto, onde havia uma casa em ruínas (como
tudo o que permanece ainda por lá ). Coincidentemente, era a antiga estação de
rádio. Mesmo com a ação dos anos, dava para ler o prefixo usado na época,
desenhado na parede.
Voltamos a São Paulo e começamos a fomentar a dxpedição propriamente dita.
Sem experiência alguma, não sabíamos por onde começar. Falei com o Iwan, PY2AH,
(soube que participara de duas expedições na década de 70 à ilha do Arvoredo)
sobre suas experiências e ele me indicou outras duas pessoas que teriam
melhores condições de nos orientar, pois tinham muito conhecimento a respeito
de DX em ilhas oceânicas. Daí para frente, começa um capítulo à parte!
Tivemos a grata satisfação de iniciar contato com o Lira, PP5LL, e com o
Jacinto, PY2PA(*). Duas grandes figuras (o Lira, até no tamanho). Experientes,
determinados e, detalhe muito importante em expedições, bem-humorados!!!
Em reunião com o Jacinto, através de conversas telefônicas e de cartas
recebidas do Lira ( recebi 12, cheguei a pensar que ele gostava mesmo era de
escrever, mas me enganei redondamente... a criatura parece que tem cola no
assento e não larga do mike, nem para comer ), íamos detalhando o evento.
O Lira, em Santa Catarina, incumbia-se de divulgar o evento aos managers do
IOTA e DIB, legalizar a ilha para tal e me dar suporte quanto à forma de
organizar. O Jacinto recebeu vários telefonemas para eu tirar dúvidas e me
orientar sobre os procedimentos em determinadas circunstancias. O Peter ficou
encarregado de fazer todo o contato com o diretor da Divisão de Recursos e
Parques do Estado e com o diretor do Parque Estadual da ilha Anchieta.
Coube ao Demarinis, PY2YW, e ao Kazuo, PY2EVW, a incumbência de conseguir os
patrocínios. Ao Rildo ficou a responsabilidade de executar toda a arte e
comunicação visual da expedição. Na parte técnica, o assessoramento ficou por
conta do Iwan, PY2AH.
Providenciamos o prefixo especial e marcamos a data para outubro, pois teríamos
um feriado, o que possibilitaria a vinda do Lira de Santa Catarina para cá.
Foi sugerido que levássemos antenas monobanda, pois operaríamos simultaneamente
com vários operadores em várias bandas e haveria, com certeza, em operações
simultâneas, possibilidade de uma antena ressonar na banda do outro.
Infelizmente não conseguimos patrocínio e acabamos comprando tudo com recursos
próprios. Como o valor foi alto, optamos por uma direcional de 10,15, e 20, uma
dipolo sem bobinas para 40 e 80 metros e uma antena vertical para 10,15, 20, 40
e 80 metros. Com isso, muitas vezes, alguém precisava parar de transmitir para
não entupir a freqüência em que o outro trabalhava (confirmei posteriormente o
porquê da insistência na compra de antenas monobandas, bem como a necessidade
de levá-las na próxima expedição).
Outro problema: a geração de energia da ilha só ocorre à noite, das 18h às 22h,
com tensão nominal de 220 Volts entre fases (não dispomos do condutor neutro).
Depois disso é desligada e a rede é mantida durante a noite por turbina
hidrelétrica com tensão nominal de 115 Volts, mas muito variável.
Durante o dia inexiste energia elétrica. Como os geradores da ilha consomem 15
barris de diesel por hora, ficou impraticável levar combustível para cinco
dias.
Resolvemos então levar geradores. O ideal seria ter duas unidades de 2 KVA,
cada. Como nada é perfeito, conseguimos um de 650 Watts que se comportou muito
bem. O outro, foi um de 300 Watts, adquirido pela AREP no último momento. Mesmo
trabalhando o dia inteiro sem parar, não apresentou problema algum, mas só
alimentava um rádio de 100 Watts de saída, precariamente, devido à grande
variação percentual de sua carga com modulação.
Levamos três rádios (seriam quatro mas, no último momento, houve um imprevisto
e o Rildo, PU2TMW, não pôde participar da expedição), um Kenwood TS120S, um TS-
130S e um TS-50S. O bibelô da turma, TS 50S, estava sendo desprezado num
primeiro momento, pois acreditava-se que não agüentaria o tranco. Como as
aparências enganam, foi o que salvou a operação em fonia, pois o TS-120S,
depois de um dia e meio, deu problema no essímetro, deixando-nos numa tremenda
insegurança (acontece que o TS 120S não foi submetido a teste na plataforma
vibratória antes de sair para a dxpedição para prevenir defeitos de fadiga
durante a viagem, nem foi levado seu manual com o esquema elétrico que
possibilitasse seu conserto no local). Adivinhem com quem ficou a
responsabilidade de operá-lo depois do problema? Com o único "PU" da expedição.
Enquanto isso, o TS-130S foi usado direto em CW, não dando problema em hora
alguma.
As antenas foram montadas e levantadas em bambus que cortamos na ilha. A dipolo
foi esticada em um coqueiro. Tivemos a idéia de levar todos os cabos celulares
já divididos em pedaços e com os conectores já soldados, que seriam emendados
com "duplo-fêmeas". Isso nos ajudou um bocado.
Nossa alimentação foi toda planejada por uma radioamadora S nutricionista,
PU2XKO - Ana, e seguida à risca pelo cozinheiro. Aliás, contratamos o Chicão na
ilha para não perder tempo cozinhando.
Ficamos acantonados em um estaleiro, também usado por universitários que fazem
pesquisas biológicas na ilha. No local havia três beliches, cozinha, banheiro
com chuveiro, água potável e um amplo espaço onde montamos as estações.
Deixamos os geradores para fora das janelas. Não se ouvindo nenhum barulho e
nem respirando gases do escape. Dos 80 litros de gasolina levados, usamos só a
metade.
A travessia do continente para a ilha foi feita em uma traineira de 25 pés e 43
anos de idade, conforme nos contou o dono, mas com aparência impecável e motor
melhor ainda.
Como a distancia entre o continente e a ilha é de 4,5 c milhas, a travessia foi
feita em l aproximadamente meia hora. O mar esteve perfeito, não enjoando
ninguém, aliás, quase ninguém....o Kazuo que o diga!!!
A equipe participante ( somando as idades, chegamos os 327 anos) era de pessoas
muito dedicadas, o que possibilitou 1.788 contatos, sendo 1.454 em fonia e 334
em CW. Trabalhamos 79 países, com apenas 17 manchas solares para o período.
Outra ajuda que determinou nosso sucesso veio através do Daniel PT7BI, Net
Control Brasil e do Fred, PY2XB, que espotou-nos diversas vezes no Packet
Cluster. Tivemos facilidade de contato com São Paulo, pois existe uma ERB
(estação rádio-base) no continente, bem em frente à ilha. Era pegar o celular e
amolar o Fred. E quanto o amolamos...
A convivência em grupo foi espetacular. O espirito de equipe predominou, fator
decisivo para alcançarmos nosso objetivo.
Cheguei às vezes a pensar que as coincidências havidas desde o início, com
sucesso em todos os detalhes, foram armadas por algum anjo radioamador,
inconformado com a falta de rádio lá no céu. (Hi! Hi! Hi!)
Para a AREP foi experiência em cima de experiência. Foi divulgada mundialmente
e, o mais importante, uniu uma equipe de primeira linha para as próximas
ilhas... até lá!!l
Os contatos feitos em vários idiomas nos ajudaram bastante na divulgação, do
projeto ecológico desenvolvido na ilha Anchieta, e na divulgação do Diploma de
ilhas Brasileiras - DIB através da AREP. Os idiomas usados foram: inglês,
alemão, japonês, italiano, húngaro, espanhol e, em contatos feitos no Brasil, o
português.
"A convivência em grupo foi espetacular. O espírito de equipe predominou, fator
decisivo para alcançarmos nosso objetivo."
QSL